No último domingo, eu me dei uma merecida pausa depois de uma semana exaustiva.
Meu filho ficou em casa na sexta-feira, meu marido estava em home office e as obrigações da vida de empreendedora, mãe e esposa, como você bem sabe, Radyante, dificilmente nos dão um respiro. Na verdade, muitas vezes parece que nunca dão.
Quase me deitei — porque, se eu deitar, eu durmo, rsrs —, mas me reclinei na poltrona e, trancadinha no meu quarto, fui me dar um grande prazer: ler.
Sem filho, sem marido. Só eu, o Kindle — e deixei a culpa também do lado de fora do quarto — e o meu café.
O livro escolhido foi “Elis e Eu: 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe”, escrito por João Marcello Bôscoli, filho de Elis Regina.
Sempre fui fã da Elis. Mérito da minha mãe, que me apresentou, na minha humilde opinião, uma das maiores cantoras do nosso Brasil.
Minha família materna sempre foi ligada à música, com músicos de carreira internacional e crooners. Esse universo sempre me encantou. Fiz aula de canto por um bom tempo, já me apresentei em alguns momentos da vida e li inúmeras biografias de grandes mulheres.
Descobrir suas histórias de vida sempre me motivou.
E foi justamente lendo sobre uma dessas mulheres que uma frase me atravessou.
“Estou cansada de ser o homem da casa”
O título do livro é forte. O relato dos dias também.
No capítulo 14, “1981: Nosso último ano inteirinho juntos”, João Marcello Bôscoli relembra conversas que ouvia entre Elis e suas amigas. Em determinado momento, aparece a frase:
“Estou cansada de ser o homem da casa.”
Eu parei nessa frase.
Talvez porque ela tenha tocado em um dos meus maiores medos.
Durante muito tempo, eu fugi de relacionamentos nos quais percebia que o parceiro não ocuparia aquilo que, para mim, era o lugar do homem provedor. Esse era um dos “checks” da minha prancheta imaginária que separaria o “escolhido” daquele que não teria a menor chance comigo.
A independência profissional e financeira sempre foi um objetivo importante para mim. E sei que, para muitas mulheres, também é.
Mas existe uma contradição que me interessa muito observar: a autonomia, que deveria ampliar nossas possibilidades, também pode ser associada à sobrecarga quando vem acompanhada da expectativa de que continuemos responsáveis por todo o resto.
É aí que a emancipação pode começar a parecer menos como liberdade e mais como mais uma obrigação.
Quando a autonomia também pesa
Logo depois da pandemia de Covid-19, meu marido, que até então era o provedor da nossa casa, perdeu seu posto profissional.
De repente, ficamos dependentes do nosso patrimônio e da minha renda.
Para mim, além do óbvio de estarmos vivendo uma pandemia mundial, ocupar aquele lugar foi extremamente desconfortável. Eu nunca, durante os meus 36 anos até então, tinha vivido naquela posição.
Meu pai era o provedor da casa. Quando me casei, meu marido assumiu esse lugar.
E, de repente, eu estava ali.
Foi um lugar de sobrecarga física: tarefas domésticas, administração da casa, carreira, colaboradores e tudo mais que envolve a vida de nós mulheres.
E, além de tudo isso, trazer o sustento para dentro de casa.
Foi quando eu entendi, na prática, uma coisa que hoje considero muito importante:
Ser financeiramente independente não significa necessariamente estar livre da sobrecarga.
Uma mulher pode trabalhar, ganhar dinheiro e construir sua carreira e, ainda assim, continuar sendo considerada a principal responsável pela casa, pelos filhos, pela organização da família e por tudo aquilo que ninguém percebe até que deixe de ser feito.
E existe uma consequência possível disso: algumas mulheres podem começar a associar a própria independência à ideia de que terão que carregar tudo sozinhas.
Eu mesma vivi esse medo.
E, por isso, consigo compreender por que algumas mulheres recuam diante da autonomia profissional. Não necessariamente porque não desejem independência, mas porque temem que independência signifique mais uma responsabilidade para administrar.
“Eu já sou mãe.”
“Já sou esposa.”
“Já cuido da casa.”
“Já preciso trabalhar.”
“Já preciso estar bonita.”
“Já preciso cuidar de mim.”
“E agora também preciso construir uma carreira?”
A pergunta que precisamos fazer é:
Que tipo de autonomia queremos construir?
A mulher que precisa dar conta de tudo
Por isso, quando penso naquela frase de Elis, não penso que a autonomia feminina seja o problema.
Penso no peso que pode existir quando a mulher precisa ocupar todos os lugares ao mesmo tempo.
Ser mãe.
Ser esposa.
Ser profissional.
Ser bonita.
Cuidar da casa.
Cuidar dos filhos.
Cuidar do relacionamento.
Cuidar da própria saúde.
Cuidar da vida emocional.
Cuidar de todo mundo.
E ainda encontrar tempo para cuidar de si.
A mulher contemporânea recebeu possibilidades que gerações anteriores não tiveram. Mas conquistar autonomia profissional e financeira não significa, automaticamente, que as responsabilidades domésticas, afetivas e familiares tenham sido igualmente distribuídas.
E existe uma consequência possível disso: algumas mulheres podem começar a associar a própria independência à ideia de que terão que carregar tudo sozinhas.
Eu mesma vivi esse medo.
E, por isso, consigo compreender por que algumas mulheres recuam diante da autonomia profissional. Não necessariamente porque não desejem independência, mas porque temem que independência signifique mais uma responsabilidade para administrar.
“Eu já sou mãe.”
“Já sou esposa.”
“Já cuido da casa.”
“Já preciso trabalhar.”
“Já preciso estar bonita.”
“Já preciso cuidar de mim.”
“E agora também preciso construir uma carreira?”
A pergunta que precisamos fazer é:
Que tipo de autonomia queremos construir?
Eu não quero ser a heroína que dá conta de tudo
Hoje, eu agradeço muito por ter tido preparação espiritual e emocional para ocupar o lugar da autonomia, mesmo que, durante um período, ele tenha sido extremamente difícil para mim.
Hoje, meu marido e eu estamos profissionalmente atuantes e também dividimos as tarefas do lar e da paternidade e maternidade.
E isso mudou muito a minha percepção sobre autonomia.
Hoje, vejo esse movimento muito além da vida financeira ou profissional.
Para mim, autonomia também é um movimento interno.
É poder bancar o próprio desejo.
É conseguir impor limites.
É reconhecer quando alguma coisa já não faz sentido.
É conseguir dizer “eu quero” sem precisar esperar que alguém autorize.
É conseguir dizer “eu não quero” sem precisar construir uma justificativa perfeita.
É conseguir parar.
E foi justamente isso que eu fiz naquele domingo.
Eu escolhi diminuir o ritmo, enfrentar a culpa e ler o livro da Elis.
Eu banquei um desejo.
Mesmo que, por alguns momentos, isso significasse não estar disponível para outras pessoas.
Sabe por quê?
Porque se eu não estiver bem, se eu não me priorizar, nada em volta vai funcionar por muito tempo.
A heroína que carrega a espada
Foi pensando nisso que voltei à frase da Elis.
A mulher que dá conta de tudo é frequentemente transformada em uma espécie de heroína.
Ela resolve.
Ela trabalha.
Ela cuida.
Ela sustenta.
Ela organiza.
Ela lembra.
Ela antecipa.
Ela segura as pontas.
E, de tanto fazer, passa a parecer que não precisa de ninguém.
Existe uma romantização perigosa nessa imagem.
Porque, no imaginário coletivo, a heroína que aguenta tudo parece não fazer mais do que a própria obrigação.
E eu me recuso a carregar a espada o tempo inteiro.
Eu me recuso a ser viúva de marido vivo.
Se um dia a alternativa para preservar minha paz fosse abrir mão de uma casa bonita, de um determinado padrão de vida ou do status de “mulher bem casada”, eu escolheria a minha paz.
Mas sei também que nem todas as mulheres conseguem fazer essa escolha.
Existem limitações financeiras.
Existem filhos.
Existem dependências emocionais.
Existem histórias familiares.
Existem medos.
Existem relações nas quais a autonomia ainda parece uma possibilidade distante.
Por isso, falar sobre independência feminina sem falar sobre as condições concretas que permitem que uma mulher seja independente também é simplificar demais a questão.
O preço de viver no automático
A verdade é que não é simples perceber o quanto estamos sozinhas.
E pode ser muito dolorido confrontar essa realidade.
Antes de escrever estas linhas, fiz uma tiragem, como faço no devocional diário que compartilho nas redes sociais da TRO.
As cartas foram:
27 – A Carta | 30 – Os Lírios | 23 – Os Ratos
Para mim, elas conversam diretamente com aquilo que escrevi nos parágrafos anteriores.
Existe uma linha muito delicada entre o desgaste cotidiano e a passividade diante da sobrecarga.
Nem sempre percebemos quando estamos apenas cansadas e quando já estamos vivendo dentro de uma engrenagem que consome, pouco a pouco, nossos desejos, nossa presença e nossa energia.
Somos continuamente condicionadas por uma sociedade que ainda espera que sejamos essa heroína que aguenta tudo calada.
E, ao mesmo tempo, quando reagimos, colocamos limites ou demonstramos insatisfação, também podemos ser vistas como difíceis, exageradas ou reativas.
Então, onde fica o espaço para simplesmente dizer:
“Eu não quero mais viver assim.”
Você não precisa esperar alguém autorizar a sua pausa
Então, o que fazer?
É preciso começar a sair desse modus operandi, dessa engrenagem diária que pode esmagar nossos sonhos e desejos.
Não espere, Radyante, que alguém autorize essa pausa.
Esse desejo precisa começar por você.
No início, ele pode ser meio “capenga”.
Pode vir acompanhado de timidez.
De medo.
De culpa.
Tudo bem.
Quanto mais você exercitar, melhor ficará nisso.
Hoje, mesmo com culpa, eu tranco a minha porta, coloco meu fone de ouvido e leio o meu livro no final de semana.
Durante a semana é mais simples, porque fico sozinha em casa, disponível para o meu trabalho e para o meu devocional, que é inegociável para mim.
Mas eu precisei aprender que o meu tempo também é meu.
E que nem toda pausa precisa ser justificada pela produtividade.
O feminino também precisa de silêncio
Sem essa pausa, acredito que autoestima, saúde emocional e espiritualidade ficam muito mais difíceis de sustentar.
O feminino saudável precisa de subjetividade.
Precisa de introspecção.
Precisa de silêncio.
Precisa de espaço para que aquilo que está dentro de nós possa ser ouvido antes de virar sintoma, irritação, exaustão ou ressentimento.
É difícil acessar essa fortaleza interior em meio ao barulho permanente.
E essa é uma das maiores lições que encontro hoje nessa história.
A trajetória de Elis também nos permite pensar sobre os custos humanos de uma vida atravessada por intensidade, trabalho, responsabilidades, relações e escolhas difíceis. Seu legado permanece justamente porque sua história não cabe em uma imagem idealizada de mulher forte.
Ela foi uma mulher real.
E é justamente aí que existe algo que podemos aprender.
Não precisamos transformar nossas vidas em uma prova permanente de resistência para provar que somos capazes.
Afinal, o que significa ser uma mulher forte?
Ser forte não é continuar carregando tudo.
É perceber o que já não precisa estar nas nossas mãos.
Autonomia não significa isolamento.
Independência não precisa significar solidão.
Dividir responsabilidades não diminui ninguém.
Pedir ajuda não apaga nossa força.
E descansar não é desistir.
Eu quero uma vida na qual possa trabalhar, ganhar meu próprio dinheiro, cuidar da minha família, amar, desejar, criar e construir.
Mas também quero poder fechar a porta do quarto, pegar meu Kindle, tomar meu café e ler um livro sem precisar me sentir culpada.
Porque, no fim, eu não quero ser a mulher que dá conta de tudo.
Quero ser a mulher que consegue escolher o que merece a minha energia.
E essa, para mim, também é uma forma de emancipação.
Jornada Florescer
Se você se enxergou na minha história ou naquela frase da Elis, eu tenho um convite especial para você.
A Jornada Florescer nasceu justamente desse espaço de pausa, presença e reconexão com aquilo que realmente faz sentido para nós.
É um caminho de autoconhecimento para mulheres que desejam olhar para si com mais presença, compreender seus padrões, escutar seus desejos e começar a construir uma relação mais consciente consigo mesmas.
Se você sente que está vivendo muito para corresponder e pouco para si, entre gratuitamente no grupo da Jornada Florescer no WhatsApp.
Por lá, você vai acompanhar de perto a construção da Jornada, receber os conteúdos e informações sobre a experiência e fazer parte desse caminho comigo.
QUERO ENTRAR GRATUITAMENTE NO GRUPO DA JORNADA FLORESCER
Com carinho,
Sibele


